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Nada de desperdício

Agricultura orgânica não é receita de bolo. O que funciona num lugar pode não dar certo em outro. A segunda parte da reportagem sobre a Fazenda Malunga, mostra que, apesar do tamanho, cada pedacinho de terra recebe tratamento individual e há diferença nas relações entre a fazenda e os funcionários, que têm até participação nos lucros da empresa.

Do alto a Fazenda Malunga lembra um grande mosaico. A propriedade tem 140 hectares. Um terço da área foi destinado à reserva legal. As manchas de mata estão interligadas por corredores de vegetação que têm diversas funções: eles servem como quebra-vento e como abrigo para os inimigos naturais, pássaros e insetos que ajudam a controlar as pragas da horta.

Tudo que vai ser feito no campo é decidido antes pelo conselho deliberativo da empresa. Fazem parte do grupo o Joe, a mulher dele, a agrônoma Clevane Vale, o Luiz Geraldo e os encarregados de cada setor.

O sucesso de uma horta orgânica depende de muitos fatores. Escolher o lugar certo para o plantio de cada hortaliça é um deles.

A alface americana é o carro-chefe da produção da Malunga. O trator levanta os canteiros. Com base numa análise de solo se calcula quanto adubo é necessário. Primeiro vem o composto orgânico. Depois, o bokashi. Com tudo bem misturado, é hora de cobrir o canteiro com plástico. “O plástico tem várias funções: o controle do mato; economia de irrigação, porque ele reduz a evaporação do solo; e o controle de doenças do solo, de doenças de folha”, explicou.

Numa chuva pesada, as gotas de água abrem pequenas fissuras nas folhas. Ao mesmo tempo, levantam partículas de solo que podem conter fungos e bactérias, que se entrarem pelas fissuras podem fazer a planta adoecer. Com o plástico cobrindo o canteiro, apenas a raiz da alface fica em contato com a terra. Depois de furar o plástico e alisar a terra, o canteiro está pronto para receber as mudas de alface.

De acordo com a fase de crescimento as culturas vão recebendo adubação de cobertura com bokashi e doses de biofertilizante.

Nem sempre esse manejo caprichado consegue evitar o aparecimento de pragas e doenças. Como o sistema orgânico proíbe o uso de venenos convencionais, a escolha de variedades resistentes é fundamental, principalmente em culturas mais sensíveis.

Além de variedades resistentes, existem produtos permitidos pela legislação dos orgânicos para controlar pragas e doenças.

A falta ou o excesso de umidade também podem causar problemas. Como toda a horta irrigada, é preciso muita atenção pra saber se as plantas estão recebendo água na medida certa. Diariamente, o agrônomo Thiago Campos faz a medição retirando terra dos canteiros e apertando entre os dedos.

A fazenda também trabalha para economizar água. Está instalando sistemas de irrigação por gotejamento e asperssores mais modernos.

Não adianta investir tanto em tecnologia se não houver gente preparada para lidar com ela. Por isso, a fazenda adotou um sistema diferente de trabalho. Na fazenda, cada cultura tem uma equipe especializada no serviço.

Não é só a alface que vem respondendo ao manejo. Hoje, a Fazenda Malunga consegue produtividades tão boas e até melhores que as de uma horta convencional. É o caso do brócoli japonês. Enquanto a média convencional é de 2,2 quilos gramas por metro quadrado, na Malunga ela chega a três quilos.
No total, da fazenda saem por mês 180 toneladas de hortaliças orgânicas.

Tudo vai para um galpão onde as verduras podem ser apenas embaladas para o comércio in natura ou minimamente processadas: lavadas e higienizadas com cloro.

A própria fazenda comercializa toda produção. Laticínios e hortaliças têm mercado certo em feiras e supermercados da cidade de Brasília. A comercialização direta tem vantagens. “Você entrega um produto mais fresco, mais rápido e com o preço mais acessível”, disse a agrônoma Clevane Valle.

Montar uma estrutura como essa não sai barato. “Até hoje já chegamos a um investimento de R$ 10 milhões. Hoje, o faturamento médio da empresa é de R$ 7 milhões. Esse ano, vamos trabalhar com uma margem de lucro de 7%”, disse Joe.

Para tocar essa estrutura, a empresa tem hoje 175 funcionários. É gente que recebe treinamento, faz aula de ginástica para melhorar o desempenho e paga apenas R$ 1,00 por refeição no restaurante instalado na fazenda.

Os funcionários também recebem uma participação nos lucros da empresa e tem gente que veio de longe para trabalhar no lugar.

Ediélson Pereira contou que foi para a fazenda em busca de uma vida melhor.

O Célio e a Marinéia chegaram à Malunga há 15 anos. Ele cuida do composto orgânico. Ela trabalha na cozinha que prepara as refeições dos funcionários.

A família vive na fazenda, em uma casa boa e com tudo que é preciso para uma vida moderna e confortável. Entre um cafezinho e um queijo orgânico, Célio e Néia contaram que estão satisfeitos com a vida que levam na propriedade.

Célio já sabe exatamente o que vai fazer nos 3,5 hectares que comprou em Cristina, no sul de Minas Gerais. “Eu já estou imaginando na minha cabeça como eu transfiro a Maluga daqui para lá”, falou.

É justamente essa a ideia do Joe: passar pra outros produtores a experiência acumulada em 20 anos de agricultura orgânica. “Nós precisamos trabalhar o economicamente viável, o socialmente justo e o ambientalmente correto. É um tripé fundamental para o sucesso da agricultura orgânica. Esse é um trabalho que estamos fazendo: convencendo novos produtores primeiro no coração, depois na cabeça e só depois nos braços para partir para realizar. Aí vai ter a certeza do sucesso”, concluiu.

Esse tripé que prevê respeito ao meio-ambiente, respeito ao trabalhador e uma produção economicamente sustentável, é uma obrigação no sistema orgânico. Mas, por imposição dos próprios consumidores, ele está se espalhando por outros setores do agronegócio, no Brasil e no mundo.
 

Fonte: Globo Rural

 

 

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