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"País tem de liderar revolução tropical", diz Carlos Nobre

Pesquisador defende que Brasil pare de focar o Bric e crie, em Copenhague, um grupo de nações com floresta tropical

  

Por Afra Balazina  

 

O Brasil precisa se distanciar das nações do Bric, composto também por Rússia, Índia e China, e de outros países em desenvolvimento. Deve criar um GTropical, grupo que reuniria nações que possuem florestas, e liderar as demandas daquelas que são ricas em biodiversidade e recursos naturais nas negociações para um acordo climático em Copenhague (Dinamarca) durante a conferência do clima que ocorrerá em dezembro.

  

A opinião é de Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que acaba de ser nomeado para a presidência do conselho diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

  

Segundo ele, o país não pode perder novamente a oportunidade de aprovar um mecanismo que considere como redução das emissões de gases que provocam o aquecimento global o desmatamento evitado de florestas. A chance já foi perdida quando se firmou o Protocolo de Kyoto. Esse mecanismo negociado internacionalmente é chamado de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (Redd).

 
 

Em entrevista ao Estado, Nobre fala de suas expectativas para a reunião de Copenhague, que ocorre daqui a 42 dias:

  

- O que o senhor espera do Brasil na conferência do clima? 

 

Minha expectativa é que o Brasil assuma um papel de liderança mais afirmativa. O Brasil tem tudo para ser um importante líder, como foi em Bali, quando o ministro Celso Amorim quebrou o gelo dizendo que os países em desenvolvimento poderiam assumir não metas, mas compromissos voluntários verificáveis, quantificáveis (de redução das emissões). Em 2007, o gelo foi quebrado com uma proposta audaciosa para a época, e isso precisa ter continuidade. Mas liderar sempre significa assumir responsabilidades. Uma liderança efetiva, não somente discursiva, implica assumir responsabilidades. Você não imagina o impacto que terá o país anunciar, em Copenhague, que cortará em 80% o desmatamento da Amazônia. Até agora, a proposta está no plano nacional de mudanças climáticas. Mas será um compromisso internacional, perante todos os países, e isso trará repercussões imensas, provocará uma onda de choque nos países tropicais.

 

 

- De que forma o Brasil tem de mostrar sua liderança?

  

O Brasil não pode só olhar para o Bric. É lógico que não poderíamos deixar de estabelecer uma parceria forte com esses países, mas temos de ter um desejo de liderar uma revolução em regiões tropicais. O Brasil - o único Bric tropical - tem a melhor condição para isso. O país não pode colocar todos os ovos no cesto do Bric ou do G-77 (grupo que reúne os países em desenvolvimento). É preciso haver um GTropical, que não existe ainda. Os tropicais têm muitos recursos naturais, biodiversidade, floresta. Todos são países em desenvolvimento e estão no G-77, mas têm peculiaridades. Essa pujança de recursos naturais dos países tropicais foi mal aproveitada até agora. O Brasil é hoje o único que tem a capacidade de monitorar o que acontece em florestas tropicais.

 

 

- Há impasses nas negociações de Redd e existe um temor de que o mecanismo beneficie madeireiros. Qual sua opinião sobre isso?

  

Sou totalmente favorável que a convenção aprove um mecanismo de Redd abrangente, flexível. É lógico que a implementação de qualquer coisa no mundo é complexa. Descobriram fraude no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), mas isso não o invalida. Precisamos da experiência. Analisando em retrospecto, foi ruim não termos aprovado em 1997 (no Protocolo de Kyoto) um mecanismo equivalente ao Redd. Se tivesse sido aprovado com o MDL algo na área do desmatamento evitado, teríamos essa experiência que hoje já existe para metano de lixão, para o setor energético. Mas, agora, saímos do zero. Foi uma falta de visão dos países que não permitiram que isso entrasse no acordo.

 

 

- O Brasil foi um dos que impediram. 

 

Sim, mas agora o país tem outra opinião sobre o assunto. O que eu gosto do Itamaraty é que as pessoas não são inflexíveis ao longo do tempo. Elas podem ser inflexíveis em um curto espaço de tempo, em uma posição, mas ao longo do tempo buscam o que é bom para o país. Então, não vou ser crítico porque hoje o Itamaraty apoia de modo geral. Mas é preciso mais do que um apoio de forma geral. A liderança brasileira na questão do Redd também tem de ser marcante - o país precisa ser uma espécie de um "broker", um intermediário. O Brasil não pode só pensar em si, mas tem de ver o interesse de todos os países tropicais e buscar uma solução abrangente, que satisfaça o interesse de todos.

 

 

- E o senhor está otimista na aprovação do mecanismo?

  

É muito difícil saber o resultado de uma reunião como essa. Mas eu estou mais otimista de que vai sair mecanismo de Redd do que sobre o fato de que os países desenvolvidos vão concordar com a sugestão do Brasil de reduzir 40% as emissões (de gases-estufa). Não que eu não queira, mas é mais provável que saia mecanismo de Redd do que todos os desenvolvidos, entre eles os EUA, aceitarem cortar 40% até 2020.

 

 

- O IPCC (painel do clima da ONU que reúne cientistas do mundo todo) falou em 2007 em corte de 25% a 40% para os países ricos até 2020. Está defasado?

  

O IPCC disse isso lá atrás, mas com os novos resultados de pesquisas não dá para falar em 25%. É preciso reduzir as emissões o mais rápido possível. Sabemos que, a partir de agora, o máximo que podemos jogar na atmosfera para que a temperatura não aumente mais de 2°C em relação ao período pré-industrial são 500 bilhões de toneladas de carbono. Nós já soltamos 500 bilhões de toneladas e agora temos esse mesmo valor, mas estamos jogando 10 bilhões por ano. Se esse ritmo for mantido, daqui a 40 anos diremos que ninguém poderá mais jogar uma molécula sequer. É um exemplo absurdo, é lógico que temos de começar a cortar o quanto antes. Dos 500 bilhões de toneladas já jogadas na atmosfera, os países desenvolvidos são responsáveis por dois terços e os em desenvolvimento por um terço - isso tem de ser invertido.

 

 

- O senhor acaba de ser nomeado presidente do conselho diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Podemos chamar o grupo de o IPCC brasileiro? 

 

Realmente, o painel foi modelado espelhado no IPCC, então,não é incorreto chamá-lo de IPCC brasileiro. Mas eu preferiria que não. Quando o criamos, tivemos a ideia de reproduzir o sucesso que os relatórios de avaliação do IPCC têm tido. E ver se conseguimos, no Brasil, fazer com que as avaliações científicas rigorosas - com metodologia bastante transparente, envolvendo toda a comunidade científica brasileira - tenham seus resultados e suas mensagens principais aprovadas por tomadores de decisão de governos.

 

 

- Quando sai o primeiro relatório?
 

Queremos fazer o primeiro até meados de 2012, de modo que ele seja incorporado rapidamente em políticas públicas no país e possa servir para o próximo relatório do IPCC.

 

  

- O Brasil já tem pesquisas suficientes para um relatório?

 

 

Temos uma densidade de pesquisa que nos permite fazer uma avaliação. Temos mais resultados em duas pontas - do conhecimento científico e da mitigação. Recentemente, foram feitos relatórios e estudos sobre economia de baixo carbono e das mudanças climáticas no Brasil. O Experimento de Grande Escala da Biosfera Atmosfera (LBA), por exemplo, avançou muito no conhecimento científico da Amazônia.

 

 

- E o que falta?

  

Nós temos muito menos estudos na questão dos impactos da mudança climática em todos os setores - da economia, do ambiente, da sociedade. Mas um dos objetivos dessa avaliação periódica, como faz o IPCC, é identificar lacunas. Logicamente, nesse primeiro relatório vamos identificar muitas.

 

 

- E nas negociações internacionais, tem faltado foco em quê?

  

Copenhague tem de avançar na questão da adaptação. O fundo criado (para fornecer recursos para os países mais pobres) é pouco efetivo, ninguém quer colocar dinheiro. Vejamos o que está acontecendo no Oceano Ártico. Os últimos resultados da ciência dizem que não é mais em 2100 que a região ficará sem gelo no verão, mas muito antes. Se o gelo acabar em 20 anos, que estratégia de conservação do urso polar temos? Existe um bom programa de conservação nos zoológicos, reprodução em cativeiro? Não sou zoólogo, não tenho autoridade científica para falar desse assunto. Mas como vamos garantir que o urso não vai sumir do planeta? Cadê os recursos para adaptação? Quando se vê a situação nos países mais pobres, fica ainda pior. Só há discursos de boas intenções, mas não vejo ações concretas.

 

  

- Temos um plano de mudança climática no Brasil, mas a política de clima ainda não foi aprovada no Congresso. Isso atrapalha?

 

Não ajuda. Junto com a aprovação da política, a coisa mais importante é a aprovação do fundo. As duas coisas andam juntas: para que se implemente as ações, as diretrizes da política, precisamos de recursos. Então, essas duas coisas precisam ser aprovadas, senão também ficaremos no discurso bem intencionado, que todo mundo aplaude, mas não vai acontecer muita coisa.

 

Fonte: O Estado de S. Paulo

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